A quem interessa que eu tenha saúde?

Reflexões sobre política, poder e o valor da medicina preventiva em tempos de retrocesso.

Nota da autora:

Este texto foi originalmente escrito em um momento de transição pessoal e política. Hoje, ao relê-lo, percebo o quanto continua atual. Por isso, resolvi revisá-lo, mantendo sua essência e emoção, mas ajustando conceitos que hoje compreendo melhor.

Sempre me identifiquei com os valores democráticos. Que tipo de liberal eu seria se escolhesse um partido cujos princípios são opostos aos meus? Ainda assim, sempre procurei olhar para as pessoas individualmente, sem me prender ao partido que elas seguiam. Porque, convenhamos, isso nem sempre diz tudo. Há muitos democratas que também não merecem meu endosso.

Adotei desde cedo um critério quase infalível: a observação. Gesto por gesto, palavra por palavra, reação por reação. É claro que me enganei inúmeras vezes — e continuo me enganando —, mas tenho certeza de que meus erros de avaliação diminuíram muito com o passar dos anos. A idade nos dá uma sabedoria que não tínhamos quando achávamos que Woodstock era apenas um festival de música sem maiores pretensões.

Na política, fui por muito tempo passiva. Aceitava — ou engolia — as decisões de quem estava no poder. Sempre acreditei naquela ideia de que todo comportamento carrega uma intenção positiva. Com isso, assisti com apatia, que hoje me incomoda, a escândalos como o Irangate e o Watergate.

Li sobre suicídios “inexplicáveis”, como o de Marilyn Monroe, sobre a crucificação pública de Monica Lewinsky — que até hoje carrega o estigma sozinha, como se fosse a Maria Madalena da história. E sobre tantas outras mulheres que perderam seus empregos, suas dignidades ou suas vidas por serem vistas como ameaça ao poder de homens acostumados a dominá-lo.

Decisões absurdas como a guerra do Iraque em busca de armas de destruição em massa que nunca existiram, a guerra do Vietnã, os drones de Obama… e tantos outros conflitos decididos por líderes que jamais precisaram estar na linha de frente, como acontecia nas guerras de verdade — aquelas que, certo ou errado, exigiam coragem física.

Quando discordava de algo ou via as consequências cruéis de certas decisões, o último detalhe que me interessava era o partido do mandatário. Fixava-me no nome dele, às vezes nem isso. Um escândalo sempre apagava o anterior.

Mas algo começou a mudar — um pouco tarde, admito — no dia 8 de novembro de 2016. As razões, creio, não precisam ser explicadas. Desde então, a cada dia, a sensação de urgência aumenta.

Recentemente, ouvi um político dizer que cabe ao cidadão decidir entre comprar um iPhone ou investir em um plano de saúde. Outro afirmou que o diferencial do plano de saúde proposto era dar ao cidadão a “liberdade” de não ter nenhum plano. E pensar que esses discursos vêm da mesma tribo — como gosto de chamar — me fez perceber que ainda erro nos meus critérios.

Hoje, ao sair feliz de uma colonoscopia com o resultado limpo, ouvi da minha médica (nascida na Índia) uma observação precisa: o governo não valoriza a medicina preventiva. Concordamos que, muitas vezes, quem tenta fazer a coisa certa é julgado não por agir com boas intenções, mas por atrapalhar interesses escusos. E o fato de minha médica não ser “nativa” provavelmente faz com que seus argumentos sejam vistos com desdém por alguns colegas.

Percebo, então, que ainda tenho muito a aprender. O problema não é apenas a tribo à qual alguém pertence, mas a tribo que ela escolhe endossar. Coincidências não existem. Pessoas se organizam em subgrupos e, muitas vezes, se escondem sob bandeiras maiores. Assim como existem falsos profetas, há também falsos democratas e falsos republicanos.

E a administração atual — eleita por um desses subgrupos — não se compara às anteriores. Ela é, indiscutivelmente, muito, mas muito pior.


Porque no fim das contas, saúde não deveria ser escolha individual, mas compromisso coletivo.

Publicado originalmente em: 08 de novembro de 2016
Revisado em: 04 de outubro de 2025

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